... começei. quando calçei as sapatilhas para sair para a rua correr, pensei que iam ser apenas mais 10 quilómetros - num percurso para lá de bonito. no vai não vai que envolve todo o processo de levantar do sofá, largar a lareira, sair para o frio - e sabendo o que me espera no "durante" - esqueci-me do meu shuffle em casa. resultado ? uma hora inteirinha comigo, sem distrações que me levassem o pensamento para longe de mim mesma.
a corrida é um desporto solitário - não interessa o número de pessoas que correm ao nosso lado. é solitário porque é muito mais psicológico que físico. e o antagonismo que se sente no corpo é tão palpável que é impossível esconder: nos primeiros quilómetros, o corpo, ainda por aquecer, grita que não quer ir mais longe - e a nossa mente diz "ppfff, anda lá, não sejas maricas - mexe-te!", e continuamos convictos que estamos bem, que não sentimos dor, que é só mais uma voltinha no parque - porque é a nossa mente que manda; há um período intermédio em que, depois do corpo aquecer um pouco, corpo e mente estão em sintonia - e a viagem, nesse pedaçinho de tempo, é ótima - ambos sabem que estão bem, que se complementam, que estar ali é fantástico, blah blah - e eu digo blah blah porque este pedaçinho de sintonia é tão curto, que não dura para chegar a mais conclusão de nirvana nenhuma. e aqui começa o inferno: o corpo, já quente e habituado a estas andanças, sabe exactamente o que tem que fazer - entra em piloto automático e é capaz de continuar no mesmo ritmo cardíaco, cadência respiratória e desempenho muscular por tempos infinitos - mas a nossa mente começa a dar sinais do inevitável - a solidão, o tempo dispendido, a concentração e o foco, o auto controlo e o nosso próprio pensamento focado durante tanto tempo em nós mesmos - ficamos
figurativamente parados a olhar para a enorme parede que nos separa dos quilómetros finais e que nos dá a ideia que nunca haveremos de lá chegar. chega o momento em que pensamos "já chega. mas para que é isto tudo? vamos lá com calminha até ao fim..." mas nunca deixamos de correr. abrandamos, e sentimos culpa; voltamos à velocidade de cruzeiro e batemos na parede outra vez. e o ciclo repete-se. e outra vez.
é este o antagonismo da corrida: isto acontece a partir do momento em que a solidão nos quebra - porque o nosso corpo, que efectivamente sente a dor da corrida, já está bem consigo mesmo e com a eficácia que produz - mas a nossa mente, que devia ser inquebrável, quebra - e mais uma vez, é a nossa mente que manda. é o processo construtivo da nossa personalidade - iremos quebrar tantas vezes quantas as necessárias até aprender. aprendemos a arranjar substitutos onde focar a atenção, aprendemos a desviar a solidão, aprendemos mecanismos de motivação, aprendemos a controlar o nosso esforço naturalmente, a gerir o nosso cansaço e a ultrapassar a parede. por isso é que não sou fã de correr sozinha - prefiro ter alguém ao meu lado: pela motivação mútua, pela companhia silenciosa mas presente, pelo
outro par de sapatilhas que acompanha o meu, sem medos e com um objectivo comum: a superação. porque quando se chega ao fim, sabe sempre muito melhor partilhar o gostinho da vitória - materializado
naquele sorriso que ainda somos capazes de desenhar no nosso rosto, enquanto recuperamos a respiração e deixamos que o cansaço nos preencha, aí sim, completamente.
divagações à parte - eu gosto de correr. porque é fácil - só são precisas as sapatilhas, porque nos constrói física e mentalmente, porque molda o carácter - e, para quem sabe o que correr acompanhado significa - fortalece e enriquece naturalmente laços de amizade que de outro modo seriam apenas
normais. ontem, e na falta da distração que a música fornece durante a viagem, dei por mim a desenhar uma história - personagens, lugares, relações. dei por mim a criar um enredo, uma intriga. dei por mim a criar vidas, cruzamentos, ligações.
dei por mim, no final, com material suficiente para debitar dois capítulos de um livro, acerca de personagens por quem já estou apaixonada. sabendo eu que isto ia acontecer - é maravilhoso termos dentro de nós um mundo que pode ser tão profundo quanto o que nós quisermos, tão complexo quanto o nosso próprio ser e tão cheio quanto o que a nossa imaginação permitir. vou aproveitar a tarde de hoje, em que vou passar horas sozinha, para começar a escrever. sem pressas, sem stresses, sem prazos, sem pressão. e vamos ver até onde chego...
desejem-me sorte, porque ao que parece isto vai mesmo acontecer... e eu vou precisar dela!