segunda-feira, 31 de março de 2014

há situações em que

mesmo quando já não esperamos absolutamente nada - conseguem ainda mostrar-nos que o "absolutamente nada" é demais. o estranho disto é quando nos apercebemos que mesmo sabendo que até nada é demais... isso continua a incomodar. o que é que acontece quando alguém que, naturalmente, se preocupa e dedica... deixa de se preocupar?

sexta-feira, 28 de março de 2014

mas alguém me quer explicar...

... porque é que eu não aprendo? Apre, gente estúpida!

sexta-feira, 7 de março de 2014

amanhã...

... é dia de matar saudades!


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

BES Run Challenge

perdi a cabeça e inscrevi-me. 4 x 10 kms... com vários níveis de dificuldade. bota!
 
 

Corrida Cidade de Aveiro

10 kms, já dia 9 de março. objectivo? menos de 1 hora: 50 minutos. sigaaa!
 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

cada um tem o que mereçe

segunda feira de manhã, reorganização de equipas e pessoas e mimimi, reunião para apresentar a "arrumação" nova do povo. até aqui, tudo muito bem - afinal de contas, mais uma mudançazinha não faz mal a ninguém. depois de algum tempo a enrolar, caixotas cor de laranja para trás e para a frente, e "vai ser melhor assim" e muitos "não confirmo nem desminto, muito pelo contrário e vice-versa" lá foi mostrado o cronograma final. eu, que entretanto ia jogando uns flappy birds pelo caminho (que raiva, senhores, que rai-va!) lançei um relançe ao que estava escrito em tamanho monumental lá na frente. olhei, sorri, olhei outra vez e abri um sorriso completo - daqueles de orelha a orelha... e depois, desmanchei-me a rir - e continuei a rir-me o dia todo à conta disto: fiquei numa das duas melhores equipas que lá estava espetada. senti-me como se me tivesse saído a lotaria - estou em casa e entre amigos (estaria em qualquer uma delas) e sei que só pode melhorar.

... e juro-vos que em vez de "java 2", vou fazer o que puder para mudar o nosso nickname para "tuxes". e sim, continuo a rir-me que nem uma desgraçada. oh, alegria!


domingo, 12 de janeiro de 2014

e assim, sem dar por ela...

... começei. quando calçei as sapatilhas para sair para a rua correr, pensei que iam ser apenas mais 10 quilómetros - num percurso para lá de bonito. no vai não vai que envolve todo o processo de levantar do sofá, largar a lareira, sair para o frio - e sabendo o que me espera no "durante" - esqueci-me do meu shuffle em casa. resultado ? uma hora inteirinha comigo, sem distrações que me levassem o pensamento para longe de mim mesma.

a corrida é um desporto solitário - não interessa o número de pessoas que correm ao nosso lado. é solitário porque é muito mais psicológico que físico. e o antagonismo que se sente no corpo é tão palpável que é impossível esconder: nos primeiros quilómetros, o corpo, ainda por aquecer, grita que não quer ir mais longe - e a nossa mente diz "ppfff, anda lá, não sejas maricas - mexe-te!", e continuamos convictos que estamos bem, que não sentimos dor, que é só mais uma voltinha no parque - porque é a nossa mente que manda; há um período intermédio em que, depois do corpo aquecer um pouco, corpo e mente estão em sintonia - e a viagem, nesse pedaçinho de tempo, é ótima - ambos sabem que estão bem, que se complementam, que estar ali é fantástico, blah blah - e eu digo blah blah porque este pedaçinho de sintonia é tão curto, que não dura para chegar a mais conclusão de nirvana nenhuma. e aqui começa o inferno: o corpo, já quente e habituado a estas andanças, sabe exactamente o que tem que fazer - entra em piloto automático e é capaz de continuar no mesmo ritmo cardíaco, cadência respiratória e desempenho muscular por tempos infinitos - mas a nossa mente começa a dar sinais do inevitável - a solidão, o tempo dispendido, a concentração e o foco, o auto controlo e o nosso próprio pensamento focado durante tanto tempo em nós mesmos - ficamos figurativamente parados a olhar para a enorme parede que nos separa dos quilómetros finais e que nos dá a ideia que nunca haveremos de lá chegar. chega o momento em que pensamos "já chega. mas para que é isto tudo? vamos lá com calminha até ao fim..." mas nunca deixamos de correr. abrandamos, e sentimos culpa; voltamos à velocidade de cruzeiro e batemos na parede outra vez. e o ciclo repete-se. e outra vez.

é este o antagonismo da corrida: isto acontece a partir do momento em que a solidão nos quebra - porque o nosso corpo, que efectivamente sente a dor da corrida, já está bem consigo mesmo e com a eficácia que produz - mas a nossa mente, que devia ser inquebrável, quebra - e mais uma vez, é a nossa mente que manda. é o processo construtivo da nossa personalidade - iremos quebrar tantas vezes quantas as necessárias até aprender. aprendemos a arranjar substitutos onde focar a atenção, aprendemos a desviar a solidão, aprendemos mecanismos de motivação, aprendemos a controlar o nosso esforço naturalmente, a gerir o nosso cansaço e a ultrapassar a parede. por isso é que não sou fã de correr sozinha - prefiro ter alguém ao meu lado: pela motivação mútua, pela companhia silenciosa mas presente, pelo outro par de sapatilhas que acompanha o meu, sem medos e com um objectivo comum: a superação. porque quando se chega ao fim, sabe sempre muito melhor partilhar o gostinho da vitória - materializado naquele sorriso que ainda somos capazes de desenhar no nosso rosto, enquanto recuperamos a respiração e deixamos que o cansaço nos preencha, aí sim, completamente.

divagações à parte - eu gosto de correr. porque é fácil - só são precisas as sapatilhas, porque nos constrói física e mentalmente, porque molda o carácter - e, para quem sabe o que correr acompanhado significa - fortalece e enriquece naturalmente laços de amizade que de outro modo seriam apenas normais. ontem, e na falta da distração que a música fornece durante a viagem, dei por mim a desenhar uma história - personagens, lugares, relações. dei por mim a criar um enredo, uma intriga. dei por mim a criar vidas, cruzamentos, ligações.

dei por mim, no final, com material suficiente para debitar dois capítulos de um livro, acerca de personagens por quem já estou apaixonada. sabendo eu que isto ia acontecer - é maravilhoso termos dentro de nós um mundo que pode ser tão profundo quanto o que nós quisermos, tão complexo quanto o nosso próprio ser e tão cheio quanto o que a nossa imaginação permitir. vou aproveitar a tarde de hoje, em que vou passar horas sozinha, para começar a escrever. sem pressas, sem stresses, sem prazos, sem pressão. e vamos ver até onde chego...

desejem-me sorte, porque ao que parece isto vai mesmo acontecer... e eu vou precisar dela!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

a técnica

a técnica passou a ser, recentemente, sinónimo de sorte fenomenal - e eu ontem, tive técnica-como-o-caraças.

ainda assim, a técnica é como muitas coisas na vida e pode-se comparar muito basicamente ao gato de Schrödinger: o gato na caixa pode estar vivo ou morto, mas só sabes se abrires a caixa e confirmares - só assim tens a certeza. a técnica é mais ou menos assim... para poderes beneficiar da técnica tens que pagar para ver.

eu ontem paguei. e, surpresa das surpresas... virou precisamente a (única) carta que me servia para transformar o meu já garantido 99 num straight flush. dois projectos transformados numa mão fenomenal. no river. foi impossível não sorrir - afinal, um straight flush não me passa pelas mãos assim tão frequentemente.

soube-me bem. estou a falar de póker. mas podia muito bem estar com o gato de Schrödinger a falar de outra coisa qualquer. qual-quer. mas hoje, estou a falar de póker.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

ontem, deixei em rascunho

um post acerca dos dias tristes sem sol. falava da falta que o sol me faz,os dias bonitos em que só apetece sorrir por motivo absolutamente nenhum, que nos aquece o corpo e a alma. dizia eu que me faziam falta os dias de sol, porque num dia de sol, há pelo menos um motivo para sorrir. e ontem, foi um dia com escassos motivos para sorrir.

hoje, qual não é o meu espanto, quando saio à rua e vejo um sol envergonhado - mas muito bonito - a querer dar ares da sua graça... e, inevitavelmente, sorri. hoje, primeiro dia de sol entre muitos, vai ser um dia bom.

... eu não sabia era que bastava pedir!

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

leio, de onde a onde

crónicas fenomenais, e gostava de ter a mesma capacidade de publicar os meus sentimentos, pensamentos, heresias e opiniões. um dia, eu vou escrever um livro - e isso é um dado adquirido. mas acho que, por mais que coloque em cada palavra que escrevo um pedaço de mim, ainda me falta palmilhar muitas pedras da calçada até ter a maturidade suficiente para transformar este mar de palavras que vive em mim num texto que transmita precisamente esse mar de palavras.

porque não chega ter a imaginação, não chega ter o vocabulário, não chega ter toda a complexidade do ser humano encaixotado num coração só, não chega ter a desenvoltura da escrita nas teclas - de quem conhece o sítio das letras de olhos fechados - nem sequer chega ter o amor aos livros que só se denota em quem, quando folheia um livro pela primeira vez, sente o apelo indescritível do cheiro das folhas - a histórias, dramas, intrigas, amores e desamores, encontros e desencontros - e não resiste a encostar o nariz ao livro e inspirar, como quem quer arrancar do livro não só a mensagem, mas também a essência. e quanto mais velhos forem os livros melhor - além da história do escritor original, ficam marcadas também todas as histórias das pessoas por quem o livro já passou - aquela mancha da lágrima que caiu precisamente quando ele lhe disse a ela que a história dos dois já não lhe interessava, ou o pedaço de chocolate que deixa adivinhar um serão à lareira numa noite chuvosa e fria, as letras distorcidas pelo pingo de café que caiu na folha - vindo de uma leitura tão intensa e absorta que a chávena de café deixou de existir fisicamente na mão de quem a segura, ou ainda aquela marca no canto da folha, que mostra as várias paragens de alguém no desenrolar da história.

quem lê um livro, não passa só os olhos pelas folhas: quer mergulhar num mundo isolado criado na imaginação, onde cada personagem é mistificada de acordo com cada desejo do leitor - e, o que torna isto ainda melhor, é que cada livro tem uma infinidade de mundos possíveis - tantos quantos os leitores que lhe passarem os olhos. ter o privilégio de proporcionar todos estes mundos, só com a imaginação, é extraordinário. e eu quero ter esse privilégio. quero partir das minhas histórias, das minhas experiências, dos meus dramas e desilusões, alegrias e vitórias - e criar um mundo que seja para mim tão extraordinário e profundo que eu seja capaz de o partilhar com o mundo, deixando assim que um pedaço de mim fique para sempre na memória de quer passar os olhos pelas folhas do meu livro.

não quero um mundo perfeito. quero um mundo meu - com todas as imperfeições de carácter, todas as curvas (e contracurvas) da vida, com todos os dias de chuva, com todas as contrariedades. mas, ao invés da minha realidade, quero refazer todas as minhas escolhas erradas - e ver no que dá. criar uma infinidade de caminhos possíveis para cada escolha: escrever cada um deles, reler, e reler outra vez, até perceber se aquele caminho seria mesmo uma escolha que eu fizesse. provavelmente, acabaria por deixar escritos precisamente os caminhos que tomei - mesmo sabendo o resultado. porque o que sou hoje, o imenso baú de recordações, a enorme profundidade e complexidade do meu ser, o carácter que possuo, o ser humano que me conheço hoje, existe por causa de todas essas escolhas - erradas ou não, fizeram de mim o que sou hoje. e, diabos me levem, sou muito orgulhosa de mim!

um dia, eu vou escrever um livro - e isso é um dado adquirido. e se calhar, pensando bem, já tenho a maturidade suficiente para começar a escrever umas linhas... e ver no que dá.

domingo, 5 de janeiro de 2014

aquele momento...

... em que, do alto da tua inteligência, pensas que estás a fazer algo fantástico e depois.... só consegues pensar "sou mesmo assim tão estúpida?"

Ah, adoro estes momentos!

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

como é que é possível...

... que este badameco tenha passado disto

(Titanic)

a isto ?
(The Great Gatsby)

A evolução deste meia-leca desde os tempos d'"A Praia" ou "Titanic" foi surreal: Gangues de Nova York, O Aviador, Os Infiltrados, Ilha do Medo, A Origem, Django e pronto, The Great Gatsby... grandes filmes, protagonizados por um badameco por quem eu não dava tostão à uns anos atrás! There you go, Leo... well done!

feliz 2014

acho engraçado como 90% das pessoas começa "anos novos" a mentir - e pior, a mentir a si mesmos. os "neste ano eu vou..." são imensos, e duvido que alguns cheguem sequer a sair do pensamento.

independentemente do quão mágico seja o virar de um ano novo, com 365 páginas branquinhas para se poder escrever um livro fantástico... a vida dá-nos oportunidades todos os dias. para mim, a resolução de 2014 é tão somente ser capaz de ver as oportunidades, ter a capacidade de as agarrar, a força para as concretizar, e - porque não vou conseguir sempre - a lucidez para perceber onde falhei e como é que posso fazer melhor.

não quero só desejar um bom ano... quero fazê-lo acontecer. assim: que haja saúde, trabalho, amor, família, amigos... e muita felicidade - que os sonhos estou cá eu para os fazer acontecer!

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

em jeito de balanço...

2013 foi um bom ano. fácil não é a palavra certa, mas bom, sim: olhando para trás agora, consigo perceber o quanto este ano me trouxe. deixei metade das minhas resoluções para 2013 por fazer - mas fiz milhentas outras coisas, que me trouxeram tantos bons momentos - que os maus acabam por ser "danos colaterais". aprendi imenso, lutei com empenho, perdi batalhas e ganhei guerras, encontrei - e também deixei ir - pessoas, ganhei amigos e conquistei mais um bocadinho do meu lugar ao sol. sou hoje melhor pessoa, ainda mais forte, ainda mais resiliente, com sonhos maiores e uma vontade ainda maior de os tornar realidade.

em 2013 eu viajei, entusiasmei-me pela corrida, fui a concertos brutais, tomei decisões - arrependi-me de algumas - e tomei decisões outra vez... e outra vez. li livros fabulosos, comprei outros tantos que estão empilhados para ler, ri-me com filmes de domingo à tarde, chorei (como seria de esperar) em episódios de Grey, fiz uma (outra) tatuagem - e já estou a pensar na próxima! redescobri pedaços de mim que julguei perdidos, encaixei desilusões e frustrações e fiz delas partes melhores de mim, deixei-me chorar sem motivo, ri-me sem motivo muitas mais vezes, fiquei feliz por poder partilhar do casamento de uma grande amiga. senti-me nostálgica quando ouvi músicas que me recordam outros tempos, vi (outra vez) os filmes do harry potter numa maratona que me durou dias.

o importante no final, mais do que aquilo que fiz, foi o que 2013 me trouxe para sentir - o coração apertado de saudades, acelerado de entusiasmo, desiludido nas expectativas, triste por saber que (não interessa o motivo) não podia fazer mais nada para que fosse diferente, feliz nos reencontros, forte nas batalhas, em êxtase nas vitórias, vulnerável nas decisões, confiante nas escolhas e revoltado nas injustiças.

2013 deu-me a possibilidade de fazer de mim mesma um espírito mais forte, num coração mais forte, numa mente mais sã. em jeito de balanço... foi um bom ano. 2014 será com certeza melhor - até porque estou empenhada em fazer com que assim seja! Feliz 2014!

sábado, 28 de dezembro de 2013

28.12.1985

e pronto, mais uma volta ao sol completa. 28 anos - cheios de momentos, vitórias, derrotas, sorrisos, risos, lágrimas, amigos, família, aventuras, viagens, festejos. é bom ter os meus 28 anos.

yep, é bom.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Night Train To Lisbon

é impressionante como portugal tem tantas histórias para contar. night train to lisbon é um filme com grandes nomes, grandes interpretações, grandes cenários (lisboa é linda!)... mas sobretudo, uma grande história. a intriga de um amor no tempo da ditadura, da lealdade baseada na verdade e na luta, as amizades que se criam sob o ferro da opressão e se desfazem à luz de grandes amores, o peso das recordações de quem é ainda vivo para recordar... e a viagem até ao fundo de nós mesmos despoletada pelas palavras de um médico da resistência, com o dom da escrita e voracidade de viver.

a riqueza da história, a profundidade com que o protagonista se identifica com uma história num livro, a beleza das paisagens, e a carga dramática de uma história com um drama político como fundo - tudo junto faz deste filme, um grande filme.


Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso de sua beleza e de sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo. Quero erguer o meu olhar para seus vitrais brilhantes e me deixar cegar pelas cores etéreas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a gritaria no pátio da caserna e a conversa frívola dos oportunistas. Quero escutar o som oceânico do órgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra a estridência ridícula das marchas. Amo as pessoas que rezam. Preciso de sua imagem. Preciso dela contra o veneno traiçoeiro do supérfluo e da negligência. Quero ler as poderosas palavras da Bíblia. Preciso da força irreal de sua poesia. Preciso dela contra o abandono da linguagem e a ditadura das palavras de ordem. Um mundo sem essas coisas seria um mundo no qual eu não gostaria de viver.
Mas existe ainda um outro mundo no qual eu não quero viver: um mundo em que se demoniza o corpo e o pensamento independente e onde as melhores coisas que podemos experimentar são estigmatizadas e consideradas pecado. O mundo em que nos é exigido amar os tiranos, os opressores e assassinos, mesmo quando seus brutais passos marciais ecoam atordoantes pelas vielas ou quando se esgueiram, silenciosos e felinos, como sombras covardes pelas ruas e travessas para enterrar, por trás, o aço faiscante no coração de suas vítimas. Entre todas as afrontas que se lançaram do alto dos púlpitos às pessoas, uma das mais absurdas é, sem dúvida, a exigência de perdoar e até de amar essas criaturas. Mesmo se alguém o conseguisse, isso significaria uma falsidade sem igual e um esforço de abnegação desumano que teria que ser pago com a mais completa atrofia. Esse mandamento, esse desvairado e absurdo mandamento do amor para com o inimigo, serve apenas para quebrar as pessoas, para lhes roubar toda a coragem e toda a autoconfiança e para torná-las maleáveis nas mãos dos tiranos, para que não consigam encontrar forças para se levantar contra eles, se necessário, com armas.
Venero a palavra de Deus, pois amo a sua força poética. Abomino a palavra de Deus, pois odeio a sua crueldade. Este amor é um amor difícil, pois tem que distinguir constantemente entre o brilho das palavras e a subjugação verborrágica a uma divindade presumida. Este ódio é um ódio difícil, pois como é que podemos nos permitir odiar palavras que fazem parte da própria melodia da vida nessa parte da Terra? Palavras que para nós foram dadas como finais, quando começamos a pressentir que a vida visível não pode ser toda a vida? Palavras sem as quais não seríamos aquilo que somos?
Mas não nos esqueçamos: são palavras que exigem de Abraão que sacrifique o seu próprio filho como se fosse um animal. O que fazer com a nossa ira quando lemos isto? Um Deus que acusa Jó de disputar com ele quando nada sabe e nada entende? Quem foi que o criou assim? E por que seria menos injusto quando Deus lança alguém no infortúnio sem motivo do que quando um comum mortal o faz? E Jó não teve todos os motivos para a sua queixa?
A poesia da Palavra divina é tão avassaladora que cala tudo e reduz toda e qualquer contestação a um uivo lastimável. É por isso que não se pode simplesmente pôr a Bíblia de lado, mas ela deve ser jogada fora assim que estejamos fartos de suas exigências e do jugo que ela nos impõe. Nela, manifesta-se um Deus avesso à vida, sem alegria, um Deus que quer restringir a poderosa dimensão de uma vida humana – o grande círculo que descreve quando está em plena liberdade – a um só e limitado ponto de obediência. Carregados com o fardo da mágoa e o peso do pecado, ressequidos pela subjugação e pela falta de dignidade da confissão, a testa marcada pela cruz de cinza, devemos marchar em direção à sepultura, na esperança mil vezes contestada de uma vida melhor a Seu lado; mas como pode ser melhor ao lado de alguém que antes nos privou de todos os prazeres e de todas as liberdades?
E, no entanto, as palavras que vêm de Deus e para ele se dirigem são de uma beleza avassaladora. Como as amei nos tempos de coroinha! Como me embriagaram no brilho das velas do altar! Como pareceu claro, tão claro quanto a luz do sol, que aquelas palavras fossem a medida de todas as coisas! Como parecia incompreensível, para mim, que as pessoas dessem importância também para outras palavras, quando cada uma delas não podia significar mais do que dispersão desprezível e perda da essência! Ainda hoje paro quando escuto um canto gregoriano, e durante um instante irrefletido fico triste que este estado de embriaguez tenha dado lugar irremediavelmente à rebelião. Uma rebelião que se ateou em mim como uma labareda quando, pela primeira vez, escutei estas palavras: sacrificium entellectus.
Como podemos ser felizes sem a curiosidade, sem questionamentos, dúvidas e argumentos? Sem o prazer de pensar? As duas palavras que são como um golpe de espada que nos decapita não significam nada menos senão a exigência de vivenciar nossos sentimentos e nossas ações contra o nosso pensar, são um convite para uma dilaceração ampla, a ordem de sacrificar precisamente o núcleo da felicidade: a harmonia interior e a concordância interna de nossa vida. O escravo na galé está acorrentado, mas pode pensar o que quiser. Mas o que Ele, o nosso Deus, exige de nós, é que interiorizemos com nossas próprias mãos a escravidão nas profundezas mais profundas e que, ainda por cima, o façamos voluntariamente e com alegria. Pode haver escárnio maior?
Em sua onipresença, o Senhor é alguém que nos observa dia e noite, que a cada hora, cada minuto, cada segundo registra nossas ações e nossos pensamentos, nunca nos deixa em paz, nunca nos permite um momento sequer em que possamos estar a sós conosco. Mas o que é um ser humano sem segredos? Sem pensamentos e desejos que apenas ele próprio conhece? Os torturadores, os da Inquisição e os atuais, sabem: corte-lhe a possibilidade de se retirar para dentro, nunca apague a luz, nunca o deixe a sós, negue-lhe o sono e o sossego, e ele falará. O fato de a tortura nos roubar a alma significa: ela destrói a solidão com nós mesmos, da qual necessitamos como do ar para respirar. O Senhor, nosso Deus, nunca percebeu que, com sua desenfreada curiosidade e sua repugnante indiscrição, nos rouba uma alma que, ainda por cima, deve ser imortal?
Quem é que realmente quer ser imortal? Quem quer viver por toda a eternidade? Como deve ser tedioso e vazio saber que não tem a menor importância o que acontece hoje, este mês, este ano, pois ainda sucederão infinitos dias, meses, anos. Infinitos no sentido literal da palavra. Alguma coisa ainda contaria, neste caso? Não precisaríamos mais contar com o tempo, não perderíamos mais oportunidades, não teríamos mais que nos apressar. Seria indiferente se fizéssemos alguma coisa hoje ou amanhã, totalmente indiferente. Diante da eternidade, negligências milhões de vezes repetidas se tornariam um nada e não faria mais sentido lamentar alguma coisa, pois sempre haveria tempo para recuperar. Não poderíamos nem mesmo nos entregar à simples fruição do dia, pois essa sensação de bem-estar decorre da consciência do tempo que se esvai, o ocioso é um aventureiro perante a morte, um cruzado contra o ditado da pressa. Onde ainda existe espaço para o prazer em esbanjar tempo quando existe tempo sempre, em todo lugar, para tudo e para todos?
Um sentimento não é idêntico quando se repete. Tinge-se de outras nuances pela percepção do seu retorno. Cansamo-nos dos nossos sentimentos quando se repetem muitas vezes ou duram demais. Na alma imortal surgiria, portanto, um tédio gigantesco e um desespero gritante perante a certeza de que aquilo nunca acabará, nunca. Os sentimentos querem evoluir, e nós com eles. São o que são porque repelem o que já foram e porque fluem em direção a um futuro onde mais uma vez se afastarão de nós. Se esse caudal desaguasse no infinito, milhares de sensações teriam que surgir dentro de nós, que, acostumados a uma dimensão limitada de tempo, nunca conseguiríamos imaginar. De modo que, pura e simplesmente, nem sabemos o que nos é prometido quando ouvimos falar da vida eterna. Como seria sermos nós próprios na eternidade, sem o consolo de podermos, um dia, vir a ser redimidos da obrigação de sermos nós? Não o sabemos, e o fato de nunca o virmos a saber representa uma bênção. Pois uma coisa podemos estar certos: seria um inferno, esse paraíso da imortalidade.
É a morte que confere o instante a sua beleza e o seu pavor. Só através da morte é que o tempo se transforma num tempo vivo. Por que e que o Senhor, Deus onisciente, não sabe disso? Por que nos ameaça com uma imortalidade que só poderia significar um vazio insuportável?
Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso do brilho de seus vitrais, de sua calma gelada, de seu silêncio imperioso. Preciso das marés sonoras do órgão e do sagrado ritual das pessoas em oração. Preciso da santidade das palavras, da elevação da grande poesia. Preciso de tudo isso. Mas não menos necessito da liberdade e do combate a toda a crueldade. Pois uma coisa não é nada sem a outra. E que ninguém me obrigue a escolher.
(“Reverência e Aversão Perante a Palavra de Deus”. Discurso de Amadeu de Prado. O Trem Noturno para Lisboa. Capítulo 19)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

e, como esperado...

... consegui. 10 kms em 1h27secs. venha a próxima!

domingo, 13 de outubro de 2013

breaking bad

começei este fim de semana a ver breaking bad, desde a season 1. é a série mais bem cotada da América, e é-o por um motivo muitissímo válido: é mesmo muito boa. o elenco, não sendo altamente conhecido, é de grande qualidade. a história, que já toda a gente conhece devido à publicidade do Markl, é original e viciante. que diabos faz um professor de química cinquentão fabricar metanfetaminas? ou melhor, o que é que, a cada um de nós, seria capaz de nos fazer passar da cabeça? onde é que temos desenhada "aquela linha que separa" a nossa sanidade mental das loucuras que cometemos? enfim, basicamente, a história principal está muito bem escrita, e todas as histórias que gravitam à volta também - e o título? genial!

domingo, 6 de outubro de 2013