É impressionante como acabamos por nos agarrar a alguém - às vezes muito mais do que a nós mesmos. Do mesmo modo, tendemos a agarrar-nos às coisas. Eu até me considero algo desprendida, mas há algo que me prende o coração: a nossa casa. O nosso lar. Guarda memórias (umas melhores que outras), histórias, pessoas. Guarda risos e sonhos. Guarda discussões sem pé nem cabeça, guarda objectivos, metas.
Tenho um enorme carinho, amor mesmo, pela nossa casa. Insisto em cuidar da nossa casa, porque só assim me sinto bem: a cuidar do nosso espaço. Só faz sentido ter uma casa, se essa casa for um lar. E para ser um lar, tem que me fazer sentir bem. Preciso da paz do silêncio, da harmonia das cores, do conforto do sofá, da alegria da cozinha, da sensação de simples-e-completo-bem-estar. Adoro estar em casa. Adoro pensar no que vou fazer as seguir. Adoro saber que tenho um espaço que é nosso e que adoro.
Adoro receber pessoas na nossa casa, e fazê-las sentir como se estivessem na delas. Partilhar as nossas pequenas vitórias, e receber de volta a sensação reconfortante do bem estar. Convidamos pessoas lá para casa, por tudo e por nada, muitas vezes. Porque também delas se faz a história da nossa vida. Quando cozinhamos para os amigos, e os servimos à mesa acompanhados de um bom vinho, estamos a construir "coisas". Quando ligamos a TV e ela fica a "falar sozinha" porque estamos demasiado entretidos entre nós, estamos a construir "coisas". Quando abrimos os álbuns das fotos e partilhamos lugares, experiências, vivências, estamos a construir "coisas". Valorizamo-nos a nós mesmos e aos outros, quando partilhamos a nossa casa. Porque esta partilha não é só abrir a porta de casa a alguém: é abrir a nossa vida, o nosso pequeno mundo, aos outros.
Andar descalça, pisar a relva, churrascar no jardim, dormir no sofá, olhar pela janela: em casa, na nossa casa, naquele pequeno espaço que é nosso -e só nosso - posso fazer o que quiser. Posso gritar, ouvir música horrorosa, rebentar com bolos no fogão, furar as paredes para pendurar coisas, deixar o gato esfrangalhar as cortinas, deixá-lo dormir onde quiser - deixando pêlo por todoooo o lado, posso... ser eu.
Neste momento, sinto a casa vazia, porque tu não estás. É por pouco tempo, eu sei, e por isso quero continuar a tratar da nossa casa o melhor que sei e que posso, para que, quando voltares, possas amar ainda mais o nosso pequeno mundo. Porque cada saída serve para isso mesmo: amarmos sempre e cada vez mais o nosso espaço.
Abro os tais álbuns de fotos, e vejo ali um pequeno pedaço de vida que, devido à nossa insistência em nos agarramos às pessoas, parece tão grande. Recordo as histórias que estão lá, e imagino as histórias que terás para me contar quando chegares. E sei que, mais uma vez, o nosso lar vai ficar um bocadinho mais cheio de "coisas": mas não faz mal, porque esse espaço é inesgotável e infinito, e nunca vai ficar demasiado cheio. Muito pelo contrário, quanto mais lhe damos cor, histórias e o enchemos de recordações, mais espaço fica aberto para as milhares de coisas que estão para vir.
Hoje, conforta-me estar na nossa casa, porque por lá tenho muito que sonhar. Mas volta depressa, porque o nosso pequeno mundo só faz sentido quando estás.